Desde o primeiro até o último parágrafo de O Alienista, de Machado de Assis, algo dá a toada dessa história: o cientificismo. Segundo as crônicas de Itaguaí, RJ, vivera ali Simão Bacamarte, o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas, que aos 34 anos retornou à Terra de Vera Cruz após recusar o pedido de El-Rei para que ficasse regendo a Universidade de Lisboa ou cuidando de assuntos monárquicos. Ora, como poderia se, em suas palavras, a ciência era o seu emprego único e Itaguaí o seu universo?
Aos 40 anos, casa-se com Dona Evarista, uma mulher nem bonita, nem simpática, mas possuidora de todos os requisitos científicos para dar-lhe filhos robustos, sãos e inteligentes. A moça, pois tinha 25 anos quando casou com Bacamartes, mente-lhe as esperanças e após 12 anos de espera, experimentos e tentativas, fada a dinastia dos Bacamartes à extinção. Qual é, então, o consolo exato? A ciência.
A ciência tem o inefável dom de curar todas as mágoas.
Por mais ampla que fosse, uma área chama-lhe a atenção: o recanto psíquico. O que levou Simão a essa preferência não sabemos, talvez a resistência da mulher a uma nova dieta, atitude que, embora explicável, era inqualificável? Pois, sendo a ciência a portadora de tantos benefícios, conquistas e avanços, a única base para a não concepção era a atitude desvairada de sua esposa.
Ao dar-se conta que tanto a colônia quanto o reino não possuíam uma autoridade no assunto, o médico desejou para si os “louros imarcescíveis” da conquista, mas, para manter a postura de sábio e entendedor, exteriormente comportava-se com modéstia. Segundo as crônicas de Itaguaí, os loucos furiosos da vila eram encerrados em casa para tratamento, enquanto os mansos andavam à solta pela rua, foi esse dado deu a Bacamartes a ideia de construir a Casa dos Orates que, pela cor de suas 50 janelas, ficou conhecida como “a Casa Verde”.
A inauguração durou sete dias, de todas as vilas e povoações próximas, e até remotas, e da própria cidade do Rio de Janeiro, correu gente para assistir às cerimônias. Foi um verdadeiro sucesso. Muitos começaram a bajular Dona Evarista por ser a esposa de semelhante homem, ela, por sua vez, estava contentíssima com as glórias do marido, enquanto ele, por medo da repreensão católica, mudava a autoria duma frase do Alcorão para Benedito VIII.
Achou no Corão que Maomé declara veneráveis os doidos, pela consideração de que Alá lhes tira o juízo para que não pequem. A ideia pareceu-lhe bonita e profunda, e ele a fez gravar no frontispício da casa; mas, como tinha medo ao vigário, e por tabela ao bispo, atribuiu o pensamento a Benedito VIII, merecendo com essa fraude, aliás pia, que o Padre Lopes lhe contasse, ao almoço, a vida daquele pontífice eminente.
Três dias depois, Simão Bacamartes confessa a seu amigo boticário, Crispim Soares, que a caridade naquela empreitada era apenas o sal, o tempero, pois o seu principal objetivo era estudar profundamente a loucura e os seus diversos graus. Ao cabo de quatro meses, os cubículos iniciais não foram suficientes, mandaram, pois, anexar outros 37. O Padre Lopes, vigário na vila, não terminava de crer que havia tantos loucos no mundo.
Alguns casos das primeiras loucuras
Um, por exemplo, um rapaz bronco e vilão, que todos os dias, depois do almoço, fazia regularmente um discurso acadêmico, ornado de tropos, de antíteses, de apóstrofes, com seus recamos de grego e latim, e suas borlas de Cícero, Apuleio e Tertuliano.
O primeiro, um Falcão, rapaz de vinte e cinco anos, supunha-se estrela-d’alva, abria os braços e alargava as pernas, para dar-lhes certa feição de raios, e ficava assim horas esquecidas a perguntar se o sol já tinha saído para ele recolher-se.
O outro andava sempre, sempre, sempre, à roda das salas ou do pátio, ao longo dos corredores, à procura do fim do mundo.
O mais notável era um pobre-diabo, filho de um algibebe, que narrava às paredes ( porque não olhava nunca para nenhuma pessoa ) toda a sua genealogia, que era esta: Deus engendrou um ovo, o ovo engendrou a espada, a espada engendrou Davi, Davi engendrou a púrpura, a púrpura engendrou o duque, o duque engendrou o marquês, o marquês engendrou o conde, que sou eu.
Outro da mesma espécie era um escrivão, que se vendia por mordomo do rei.
Um sujeito que, chamando-se João de Deus, dizia agora ser o deus João, e prometia o reino dos céus a quem o adorasse, e as penas do inferno aos outros.
O licenciado Garcia, que não dizia nada, porque imaginava que no dia em que chegasse a proferir uma só palavra, todas as estrelas se despegariam do céu e abrasariam a terra; tal era o poder que recebera de Deus.
A responsabilidade e o desejo de ver sobre a sua cabeça os louros imarcescíveis tomaram o alienista por completo, ele já mal dormia, mal comia e ia de texto em texto sem dizer uma só palavra a Dona Evarista. A indiferença, é claro, foi sentida e a mulher, no fim de dois meses, definhava a olhos vistos. Percebendo as aflições da esposa, Bacamartes consente que viaje ao Rio de Janeiro, pois a cidade era-lhe como o sonho do hebreu cativo. Não pode dissimular o entusiasmo e Simão, observando o fenômeno, tomou nota do ocorrido.
Acontecia que, com semelhante trabalho, o alienista ganhara muito dinheiro. A arca onde guardavam as moedas de ouro estava cheia, e os livros, repletos de números. Depois de três meses, uma comitiva partia para o Rio de Janeiro. Na despedida, porém, a única preocupação do médico não eram as lágrimas abundantes e sinceras da esposa, mas a ideia que um demente poderia estar ali misturado com a gente de juízo. Na volta, o alienista fitava o horizonte, deixando que o seu cavalo o guiasse à casa, Crispim, entretanto, trazia os olhos baixos, entre as orelhas de seu animal.
Imagem vivaz do gênio e do vulgo! Um fita o presente, com todas as suas lágrimas e saudades, outro devassa o futuro com todas as suas auroras.
O sossego em Itaguaí começa a ser abalado no Capítulo V — se não desde a primeira linha dessa história—, quando um certo Costa foi recolhido à Casa Verde por andar emprestando, sem usura, a herança que recebera de seu tio. Muitos correram ao manicómio a interceder pelo generoso cidadão, contudo, após Bacamartes encerrar também a prima do detido, pois na tentativa de salvá-lo ela diz que tudo aquilo eram os efeitos de uma maldição, ninguém se atreveu a outra interferência.
A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.
Costa fora apenas o primeiro, após ele veio Mateus, Martim Brito, José Borges do Couto Leme, Chico das cambraias, o escrivão Fabrício e ainda outros. O terror, a cada suposto louco preso, crescia mais e mais. As mulheres rezavam à Nossa Senhora para que os maridos não fossem encarcerados, alguns dos homens andavam com capangas e a Câmara sentia a pressão popular. Todos tentavam encontrar uma razão para as ações do alienista, e um tal de Porfírio, barbeiro em Itaguaí, decide, com intenções mais políticas que sociais, liderar a sublevação contra a ciência, contra o ilustre Simão Bacamartes.
Reflexões

É conhecida em Machado a exposição das misérias humanas e em O Alienista não é diferente. O conto, ou novela, traz-nos alguns contrastes de forma irônica e interessante. O casamento, por exemplo, ocorreu quando o médico tinha 40 anos; ora, por que uma idade tão tardia? Provavelmente os laços matrimoniais nunca estiveram em seus planos, porém, estando a idade já avançada (expectativa de vida inferior a de hoje), era hora de perpetuar “a dinastia dos Bacamartes”. O herdeiro, contudo, não veio, o que pode ter despertado a loucura nessa obra, e se excelso médico não teria encarnada a continuação da sua glória, era preciso perpetuá-la no papel, na história.
Aqui todas as oportunidades são abraçadas: o político saboreia os créditos de uma frase alheia, o barbeiro vê a chance de entrar para a vida pública, o padre encontra um motivo para odiar. Os amigos, os amores, os conselhos, tudo é tão claro e lúcido como os primeiros pacientes, e o médico não fica atrás — aliás, no fundo, parece ser o único a tomar a dianteira.
Apesar de curta, essa é umas obras machadianas mais divertidas que li. A ciência, causa de tudo, acaba revelando-se maleável à inexatidão humana. Acompanhamos a história com um sorriso sarcástico, divertindo-nos com as situações e segredando um “de médico e louco, todo mundo tem um pouco”. Afinal, quem não seria contado entre os “loucos mansos” que andavam pelas ruas de Itaguaí? Ou quem sabe se “com os olhos acesos da convicção científica” não nos trancaríamos também no manicômio, entregando-nos ao estudo e à cura de nós mesmos? Enfim, dizem que o mundo é uma grandíssima Casa Verde, mas isso, como o que circulava naquela vila, é só um boato.
Uma curiosidade
Em 1882, ano em que a obra foi publicada, aconteceu um dos eventos científicos mais importantes do Brasil oitocentista: a Exposição Antropológica de 1882, realizada pelo Museu Nacional do Rio de Janeiro e fortemente influenciada pelo Darwinismo.
4 Motivos para ler O Alienista, de Machado de Assis
- É divertidíssimo;
- É curto, cerca de 90 páginas;
- Está em domínio público, ou seja, é gratuito;
- Faz-nos refletir até onde a ciência é a máxima autoridade.
Outras frases de O Alienista, de Machado de Assis
A índole natural da ciência é a longanimidade.
A ciência tem o inefável dom de curar todas as mágoas.
Mas deveras estariam eles doido, e foram curados por mim, ou o que pareceu cura não foi mais do que a descoberta do perfeito desequilíbrio do cérebro?
A saúde da alma, bradou ele, é a ocupação mais digna do médico.
Nada tenho que ver com a ciência; mas, se tantos homens em quem supomos juízo são reclusos por dementes, quem nos afirma que o alienado não é o alienista?
A Casa Verde é um cárcere privado – disse um médico sem clínica.
A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia, insânia e só insânia.
Verdade é que, se todos os gostos fossem iguais, o que seria do amarelo?
Não nos dispersaremos. Se quereis os nossos cadáveres, podeis tomá-los; mas só os cadáveres; não levareis a nossa honra, o nosso crédito, os nossos direitos, e com eles a salvação de Itaguaí.
Preso por ter cão, preso por não ter cão.
Destruamos o cárcere de vossos filhos e pais, de vossas mães e irmãos, de vossos parentes e amigos e de vós mesmos. Ou morrereis a pão e água, talvez a chicote, na masmorra daquele indigno.
Portando que se devia admitir como normal e exemplar o desequilíbrio das faculdades.
Atualização: 28/02/2021
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