Uma breve história antes de entrarmos nos exemplos de galicismos. No banco, enquanto aguardava a minha hora de ser atendida, uma palavra, pela primeira vez, chamou-me a atenção: guichê. Soou-me estranha, não portuguesa; assim resolvi ganhar tempo pesquisando a etimologia daquela que me picou a curiosidade. Como imaginado, guichê vem do francês guichet, que, em bom português, significa postigo, ou “pequena porta”. Por ter sido uma grande influência mundial, a França alcançou também o Brasil — a bandeira nacional que o diga — então, fruto do ócio ou da inquietação, comecei a pensar o quanto do francês não passa como língua vernácula, hoje.
Após quatro ou cinco nomes de pratos, veio-me à mente a palavra magazine (magasin), depósito para nós. Forçando um pouco mais, lembrei-me do título do conto machadiano já resenhado aqui no blog: O Alienista, termo que a obra popularizou para a palavra grega psiquiatra. Não satisfeita, pesquisei e encontrei, surpreendida, muitos galicismos que, na minha ignorância, cria ser puro português. Segue a listinha de exemplos:
- Pivot: significa eixo. Ser o “pivô” de uma situação, ou seja, o agente dela, significa ser o eixo, o seu suporte;
- Madame: significa senhora. Da mesma maneira, o inglês foi influenciado e virou madam;
- Cabine: significa camarote. Derivado do latim camara, é o mesmo que “quarto com teto recurvo”, influência do teatro;
- Gaffe: significa deslize. Essa também é muito conhecida. No popular, seria o nosso “pagar mico”;
- Carnet: significa talão. Quem não lembra do “talão de cheque”? Pois é, o substituímos por “carnê”;
- Camelot: significa vendedor ambulante. Está bem, essa agiliza a comunicação, afinal é o mesmo pensamento numa só palavra;
- Dossier: significa arquivo, registro. É a forma de organizar as informações sobre algo ou alguém;
- Griffe: significa etiqueta, marca luxuosa. Para que falar “roupa de grife” se podemos dizer “roupa de marca”?;
- Marrom: significa castanho. Minhas retinas viram uma mentira esse tempo todo. O nome vernáculo para a cor é castanho;
- Complot: significa conspiração. Talvez este seja mais um caso de brevidade na fala, mas ainda assim é estrangeirismo inecessário;
- Atelier: significa oficina. “Ateliê” de música, não: oficina de música;
- Cachet: significa remuneração. Mais ligado ao meio artístico, a palavra pode ser também substituída por paga, recompensa ou salário;
- Réveillon: significa passagem de ano. Outro exemplo de mesma ideia em menos palavras;
- Gourmet: significa gastrônomo. Alguém que é apreciador de bons pratos;
- Nuance: significa matiz. É a tonalidade diferente de cores ou a diferença sutil entre as coisas.
Não tenho com esse texto a ilusão de purificarmos o Português, trago-o a título de curiosidade linguística e não de saudosismos vernáculos — porque, caso assim fosse, deveríamos tornar ao Latim ou, ainda, às línguas indo-europeias. Contudo, sendo uma das marcas que nos faz parte de um povo, é nosso dever preservar o idioma pátrio. Alguém dirá que preferiria ter nascido num país de distinta língua, entretanto, por ser o primeiro código linguístico que lhe permitiu expressar os sentimentos e vontades, o Português deveria ter, pelo menos, o seu carinho; já depois se escolhe aprender quais e quantas línguas quiser.
É difícil, eu sei, mas talvez deveríamos cuidar as palavras que usamos, buscando substituir as que, agora, sabemos ser francesismo, pelas mais “portuguesas”. Como os anglicismos desnecessários, parece-me dispensável o uso de madame quando já possuímos senhora, ou carnê quando já temos talão. Seria interessante tentarmos recuperar a sintaxe e as palavras clássicas do nosso idioma — coisa para qual eu também preciso atentar — porque, se dizemos ter amor às línguas, não há melhor modo de demonstrá-lo que começando pela materna.
Um comentário em “Galicismo: a influência francesa no Português”